Faleceu Nuno portas …

 

O arquiteto Nuno Portas, figura incontornável da arquitetura e do urbanismo em Portugal, faleceu este domingo aos 90 anos. A confirmação da sua morte foi dada por Helena Sacadura Cabral, economista e antiga companheira, com quem teve dois filhos, entre eles o político Paulo Portas.

Nascido a 23 de setembro de 1934, em Vila Viçosa, Nuno Portas formou-se em arquitetura nas Escolas de Belas Artes de Lisboa e do Porto, concluindo os estudos nesta última em 1959. Ao longo da sua carreira, tornou-se uma voz influente no pensamento sobre o espaço urbano em Portugal.

Reconhecido por aliar a prática arquitetónica à reflexão teórica, Portas desempenhou um papel fundamental na renovação das políticas habitacionais portuguesas, especialmente após a Revolução de Abril de 1974. O seu nome ficará para sempre ligado ao programa SAAL — Serviço de Apoio Ambulatório Local.

Este projeto, inovador à época, procurou promover a habitação social com envolvimento direto das comunidades, marcando uma rutura com modelos tradicionais. A iniciativa SAAL continua a ser uma referência no debate sobre habitação e inclusão social em Portugal.

Para além da atividade técnica e académica, Nuno Portas também participou ativamente na vida política. Em 1975, foi eleito deputado à Assembleia Constituinte pelo Movimento da Esquerda Socialista (MES), tendo contribuído para os debates sobre a construção do novo regime democrático.

Na área do planeamento urbano, defendeu sempre uma visão participativa, acreditando que a construção das cidades devia integrar os cidadãos nos processos de decisão. Essa perspetiva marcou profundamente as suas obras e intervenções no território.

Ao longo dos anos, Portas foi professor universitário, autor de inúmeras publicações e mentor de várias gerações de arquitetos e urbanistas. O seu trabalho foi distinguido nacional e internacionalmente, sendo amplamente respeitado no meio académico e profissional.

Com a sua morte, desaparece uma das vozes mais influentes na história do urbanismo português contemporâneo. A sua contribuição foi decisiva na forma como hoje se pensa e se desenha o espaço público no país.

O mundo cultural e académico tem vindo a reagir com tristeza à notícia do seu falecimento, sublinhando a relevância do seu legado. Muitos destacam a sua coerência ética, a visão humanista da arquitetura e o compromisso com a transformação social através do urbanismo.

Nuno Portas deixa um contributo que perdura muito para além das suas obras construídas: uma forma de pensar a cidade como lugar de convivência, justiça e inclusão. A sua partida representa uma perda irreparável para a cultura portuguesa.