Em Portugal, os incêndios florestais repetem-se todos os anos como uma tragédia anunciada. Mas por trás das chamas, há muitas vezes um sistema complexo que transforma a destruição em oportunidade de negócio. O fogo, mais do que uma catástrofe, tornou-se para alguns um motor de lucro.
Não se trata apenas de atos de pirómanos solitários, mas de interesses organizados que veem vantagem em queimar a floresta. Grandes grupos ligados à indústria da madeira e da celulose são frequentemente apontados como beneficiários indiretos, já que o eucalipto, que domina largas áreas, cresce depressa e gera retorno financeiro elevado.
As empresas de reflorestação também entram nesse círculo. Cada hectare ardido representa um contrato possível, muitas vezes financiado por fundos europeus destinados à recuperação de áreas devastadas. Na prática, quanto mais terreno queimado, mais trabalho e dinheiro circulam nesse setor.
O setor da construção não fica de fora. Áreas consideradas “inapropriadas” para edificar tornam-se, após incêndios, terrenos mais fáceis de negociar e legalizar. O fogo abre caminho para novos projetos urbanísticos em locais onde, antes, a floresta era uma barreira.
Outro ator silencioso são as seguradoras. Há casos em que incêndios se transformam em oportunidade de ativar apólices milionárias. Terrenos, casas e até empresas recebem indemnizações significativas, enquanto as comunidades locais ficam com as cinzas e o desespero.
Há ainda o negócio do combate às próprias chamas. Helicópteros, aviões e meios aéreos são alugados a preços exorbitantes, e as horas extraordinárias mobilizam milhões de euros todos os verões. Uma tragédia que devia ser apenas uma urgência nacional acaba, muitas vezes, por ser vista também como fonte de faturação.
O padrão repete-se: o fogo destrói, mas gera dinheiro para alguns setores. As aldeias, os agricultores e quem vive diretamente da terra ficam apenas com as perdas. O desequilíbrio é evidente e reforça a sensação de abandono sentida em muitas comunidades rurais.
Se o país conseguisse tornar a floresta economicamente mais valiosa em pé do que em cinzas, o ciclo poderia ser quebrado. Apostar em culturas alternativas — frutos secos, plantas medicinais, apicultura, turismo rural — daria novos rendimentos e retiraria espaço ao modelo de destruição que hoje impera.
Cooperativas locais, com gestão comunitária da floresta, poderiam transformar a paisagem em recurso sustentável, em vez de deixá-la vulnerável ao fogo e aos interesses de quem lucra com a tragédia. Valorizar a sombra das árvores seria mais rentável do que assistir ao seu desaparecimento.
Enquanto isso não acontece, Portugal continuará a assistir, ano após ano, a verões pintados a preto e cinzento. E sempre que um incêndio for explicado apenas como fatalidade ou acidente, convém lembrar que, por trás da chama, existe um negócio que resiste — e que dificilmente arderá nas mesmas fogueiras que consomem as nossas florestas.
